A FORMAÇÃO DE UMA CIÊNCIA PRAGMÁTICA NA ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA

Autores

  • Gabrielly de Bastos Leão ifg@ifg.edu.br
  • Paulo Miguel Moreira da Fonseca ifg@ifg.edu.br

Palavras-chave:

Ciência pragmática, Ilustração portuguesa, Reformismo

Resumo

Este artigo investiga a formação de uma ciência de caráter pragmático no contexto da Ilustração portuguesa do século XVIII, analisando-a à luz do conceito de "Antigo Regime nos Trópicos". A pesquisa argumenta que a produção científica luso-brasileira não era um empreendimento puramente especulativo, mas um instrumento funcional às demandas administrativas, econômicas e políticas do Império Colonial Português. Inserida no projeto reformista português, essa ciência ilustrada visava à modernização conservadora do Estado, otimizando os mecanismos de dominação e exploração dos territórios ultramarinos sem romper com as estruturas hierárquicas e patrimoniais do Antigo Regime. Nesse sentido, o saber científico surgia como um instrumento de racionalização do poder, associado à necessidade de conhecer e administrar melhor o vasto império colonial, convertendo a observação da natureza em um mecanismo de controle e de legitimação da autoridade metropolitana sobre as colônias. A figura do naturalista Frei José Mariano da Conceição Velloso e sua atuação na Tipografia do Arco do Cego são tomadas como estudo de caso, a análise centra-se em sua obra O Fazendeiro do Brasil, um manual agrícola que compilava e adaptava saberes técnicos estrangeiros para a realidade colonial. O objetivo era racionalizar a produção, diversificar a economia rural e, consequentemente, aumentar a riqueza do império, a obra evidencia o esforço de disseminar o conhecimento, orientando-o para a aplicação prática. Além de servir como veículo de difusão de técnicas agrícolas e métodos produtivos, o manual expressava o ideal ilustrado de utilidade pública e progresso material, integrando-se a um projeto pedagógico voltado à formação de súditos produtivos, disciplinados e leais à Coroa. Busca-se aqui mostrar as ambiguidades desse projeto, se por um lado, o pragmatismo científico promovia a utilidade e a modernização técnica, por outro, estava profundamente subordinado aos interesses metropolitanos. A ciência atuava como uma ferramenta de racionalização social e de controle, legitimando o domínio colonial, invisibilizando saberes locais e operando em sintonia com a censura estatal, que filtrou a circulação de ideias. Essa relação entre ciência, poder e colonialismo revela o modo como o conhecimento foi apropriado para reforçar hierarquias e consolidar o monopólio cultural e econômico da metrópole. Dessa forma, a pesquisa conclui que a ciência ilustrada luso brasileira, exemplificada por Velloso, foi um elemento chave em um projeto político mais amplo de afirmação da soberania portuguesa, cujo caráter instrumental revela as tensões entre modernização e conservadorismo no mundo colonial. A produção científica, nesse contexto, representava não apenas um avanço técnico, mas também um discurso de poder, que legitimava a permanência das estruturas sociais e econômicas do Antigo Regime, mesmo sob a prerrogativa ilustrada.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Downloads

Publicado

2026-02-13

Métricas


Visualizações do artigo: 1     PDF downloads: 0