GEOGRAFIA DA FOME UMA RELEITURA DA OBRA DE JOSUÉ

Autores

  • Julia Beatrice Trindade Pinto ifg@ifg.edu.br
  • Luiza Helena Barreira Machado ifg@ifg.edu.br

Palavras-chave:

Feijão, Soberania Alimentar, Agricultura Familiar, Luziânia, Geografia da Fome

Resumo

Este trabalho apresenta uma análise da produção de feijão em Luziânia (GO), tomando como referência a obra Geografia da Fome, de Josué de Castro, e investigando sua contribuição para a soberania alimentar brasileira. A pesquisa se justifica pela centralidade do feijão na dieta nacional e pela posição estratégica do município como um dos maiores polos produtores do país, o que torna fundamental compreender como os diferentes modelos de agricultura – familiar e patronal – impactam a segurança e a soberania alimentar. O objetivo principal foi avaliar em que medida a produção local contribui efetivamente para a garantia do direito à alimentação, considerando tanto o volume quanto a distribuição e o modelo produtivo adotado. Metodologicamente, desenvolveu-se uma pesquisa bibliográfica, conforme Gil (2002), Marconi e Lakatos (2003) e Severino (2007), fundamentada em dados secundários do IBGE e da CONAB, além de literatura especializada sobre agronegócio, agricultura familiar e soberania alimentar. A análise dos dados revelou que Luziânia figura entre os maiores produtores nacionais de feijão, com safra expressiva que compõe parcela relevante da produção brasileira. Entretanto, sob a lente crítica de Josué de Castro, verificou se que a elevada produtividade do agronegócio não garante, por si só, a soberania alimentar, já que a lógica de commodities prioriza exportação e grandes redes de distribuição, restringindo o acesso direto da população local ao alimento. Constatou-se, ainda, um “apagão de dados” municipais que dificulta a mensuração da participação da agricultura familiar, invisibilizando os pequenos produtores e reforçando desigualdades sociais e fundiárias. Tal lacuna estatística, além de obstáculo metodológico, constitui resultado político relevante, pois evidencia a necessidade de uma “soberania de dados” para orientar políticas públicas. A pesquisa destacou o papel fundamental da agricultura familiar como pilar da segurança alimentar local, embora sua contribuição quantitativa seja menos expressiva. Essa dualidade produtiva – de um lado o “feijão commodity” voltado ao mercado, de outro o “feijão alimento” voltado ao consumo direto – confirma a tese de Castro de que a fome não decorre da falta de produção, mas da má distribuição e das contradições estruturais do modelo agrário brasileiro. Como produto adicional, desenvolveu-se uma  página web que reúne os dados levantados no estudo, permitindo maior acesso às informações e ampliando a divulgação científica. Conclui-se, portanto, que a contribuição de Luziânia é quantitativamente relevante, mas qualitativamente paradoxal, reforçando a necessidade de políticas que valorizem sistemas alimentares diversificados, resilientes e justos. Recomenda se a realização de pesquisas futuras com metodologias qualitativas, de modo a superar as lacunas estatísticas, dar visibilidade aos pequenos produtores e fortalecer a compreensão crítica das dinâmicas produtivas locais. Assim, o estudo contribui para o debate sobre soberania alimentar no Brasil, ao demonstrar que a produção agrícola, por si só, não é suficiente para garantir o direito humano à alimentação.

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Publicado

2026-02-13

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