v. 2 n. 1 (2021): Incomum Revista

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Apresentação

A Incomum Revista chega a mais uma edição comprometida com seu propósito fundante: ser um espaço plural e rigoroso de reflexão sobre arte, educação, profissionalização e comunidades. Este número, vinculado ao Programa de Mestrado Profissional em Artes, PROFARTES, do Instituto Federal de Goiás, reúne contribuições que, em sua diversidade de linguagens e abordagens, convergem para uma questão central e urgente: o lugar do corpo na produção de conhecimento artístico, pedagógico e cultural.

Abrimos este volume com Mitologias Centáuricas, ensaio visual de Davidson José Martins Xavier, artista e pesquisador do PPGAC/UFG. A fotoperformance propõe uma dramaturgia à deriva, na qual o corpo norte-mineiro do performer se torna território de autoficção e resistência. Utilizando folíolos secos do Guapuruvu como elemento de mascaramento, Xavier investiga a negritude apagada de sua trajetória e a reconstrói por meio de uma poética biodegradável que embaralha o real e o imaginário, a memória e a invenção.

Em diálogo com essa potência do corpo como episteme, o relato de experiência de Kathleen A. Spanos, pesquisadora da Universidade de Maryland, nos leva à Zona da Mata pernambucana para refletir sobre danças de resistência como o frevo, o cavalo marinho e o maracatu rural. A afirmação do mestre Fábio Soares da Silva, o corpo é tudo, atravessa todo o texto como uma proposição decolonial: o corpo não é mero suporte do movimento, mas lugar de teoria, transmissão cultural e resistência coletiva frente às hierarquias que separam mente e matéria, arte e vida.

Tainá Dias de Moraes Barreto, docente do próprio IFG, nos apresenta um relato sobre metodologias brasileiras de educação somática na formação em dança, destacando a Técnica Klauss Vianna e o método Instabilidade Poética de Clara Faria Trigo. A pergunta que organiza o texto, que corpo está em jogo?, ilumina a diversidade dos estudantes atendidos pela instituição e reivindica pedagogias que respeitem a singularidade de cada sujeito, ao mesmo tempo que valorizam a produção de conhecimento desenvolvida no Brasil.

Roberto Rodrigues, também docente do IFG, propõe pensar os Ateliês de Criação em Dança sob a perspectiva de uma Pedagogia Performativa, em que ensinar e aprender se tornam atos de tessitura coletiva. Ancorado em Schechner, Pineau, Freire e bell hooks, o autor defende que o espaço pedagógico é um lugar de performance, onde corpo, experiência e criação se imbricam na construção de saberes que resistem à hierarquia entre professor e estudante, entre técnica e poética.

Fechando o volume, Regiane de Ávila Chagas, da Faculdade de Educação da UFG, lança um olhar crítico sobre o funk ostentação à luz da Teoria Crítica da Sociedade de Theodor Adorno e Max Horkheimer. Ao examinar as lógicas da indústria cultural que perpassam esse gênero musical amplamente consumido pela juventude brasileira, a autora nos convida a refletir sobre os mecanismos de padronização, fetichismo e regressão da formação que operam na cultura industrializada, e sobre os desafios de uma educação que aspire à emancipação.

Juntos, esses trabalhos tecem uma conversa sobre corpos que dançam, resistem, ensinam e consomem; sobre saberes que emergem do chão, do suor e da instabilidade; sobre a arte como forma de conhecimento que não cabe em nenhuma lógica colonial ou mercadológica. A Equipe Editorial agradece a todos os autores e autoras que confiaram à Incomum Revista o fruto de suas pesquisas e experiências, e convida leitoras e leitores a deixarem que esses textos os movam.

Equipe Editorial Incomum Revista

Publicado: 2026-06-23