v. 1 n. 1 (2020): PROFISSIONALIZAR-SE em ARTE: POR DENTRO E POR FORA DA ESCOLA
Apresentação
É com grande satisfação que a Incomum Revista apresenta seu primeiro número, dedicado ao campo da Arte, da Educação, da Profissionalização e das Comunidades, missão que nomeia e orienta esta publicação vinculada ao Programa de Pós-Graduação Profissional em Artes - Redes PROFARTES do Instituto Federal de Goiás. Este número inaugural reúne produções que colocam em diálogo os corpos que dançam, as memórias que ensinam e os pensamentos que resistem, configurando um panorama plural e comprometido com as transformações do campo artístico-pedagógico contemporâneo.
Os textos aqui reunidos percorrem a história do ensino da dança no Brasil, das primeiras escolas de balé às licenciaturas universitárias, investigando como a dança foi gradualmente reconhecida como linguagem artística obrigatória na educação básica. Esse percurso histórico é acompanhado de reflexões sobre a formação docente: uma professora-artista narra sua trajetória de autoformação no Rio Grande do Sul, revelando como os saberes construídos fora da academia, em academias, estúdios e companhias, são constitutivos de uma identidade pedagógica singular. Ambos os textos evidenciam que o ensino da dança não é atividade neutra, mas prática social atravessada por políticas públicas, disputas curriculares e vivências corporais irredutíveis.
O debate se aprofunda com os estudos sobre as danças da contemporaneidade: funk, axé, danças de rua, sertanejo que habitam os corpos dos estudantes da educação básica e encontram, nas salas de aula, barreiras construídas pelo preconceito cultural e pela lógica eurocêntrica de valoração estética. Questiona-se: que danças têm direito de existir na escola? A proposta que emerge desses trabalhos é a de um ensino que parte do repertório sociocultural do aluno, reconhecendo o corpo como arquivo vivo de cultura, para então ampliar horizontes críticos e sensíveis, sem hierarquias, sem apagamentos.
Esse horizonte crítico encontra seu desenvolvimento mais radical no ensaio sobre as práticas artísticas contemporâneas no espaço ibero-americano. Por meio do pensamento pós-colonial e decolonial, artistas como Yonamine Miguel, Grada Kilomba, Jota Mombaça e Daniela Ortiz nos ensinam que a arte pode ser um campo de reexistência, de redistribuição da palavra e de disputa pelos postos narrativos historicamente negados aos corpos racializados, dissidentes e periféricos. A arte, aqui, não decora: ela rasga, interpela e exige escuta.
Juntos, esses textos afirmam que arte e educação são inseparáveis quando o objetivo é a formação integral, emancipadora e sensível dos sujeitos. Convidamos professoras e professores, pesquisadoras e pesquisadores, artistas e estudantes a percorrerem estas páginas com olhos abertos para o que os corpos têm a dizer e para o que as escolas, as universidades e as instituições culturais precisam, urgentemente, aprender a ouvir.
Equipe Editorial Incomum Revista
PROFARTES — Instituto Federal de Goiás




