INDIGNOS DE SERVIR
FRACASSOS E EXCLUSÕES NOS PROCESSOS DE HABILITAÇÃO AO CARGO DE COMISSÁRIO DO SANTO OFÍCIO EM CACHOEIRA (1698–1785)
DOI:
10.59616/conehd.v1i10.2200Palavras-chave:
Inquisição portuguesa, Fracasso social, Mobilidade colonial, Pureza de sangue, Recôncavo baianoResumo
Este artigo analisa os processos de habilitação malsucedidos ao cargo de Comissário do Santo Ofício na vila de Cachoeira, no Recôncavo baiano, entre 1698 e 1785. Com base na análise de sete processos de Habilitação incompletos preservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, investiga-se de que modo critérios de pureza de sangue, reputação moral e estabilidade econômica atuaram como mecanismos institucionais e simbólicos de seleção e exclusão social. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, apoiada na análise documental e na prosopografia dos candidatos recusados. Argumenta-se que a reprovação nesses processos ultrapassava a dimensão burocrática, funcionando como instrumento de distinção social e de controle das hierarquias no contexto do Antigo Regime luso-brasileiro. Ao examinar as trajetórias dos candidatos rejeitados, o estudo evidencia como rumores, acusações morais e suspeitas genealógicas podiam comprometer carreiras e produzir marcas duradouras de desqualificação social.
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