A crise do estruturalismo tardio: perspectivismo e animismo, repensando cultura, natureza, espírito e corporeidade
DOI:
10.56762/tecnia.v11i1.2825Palavras-chave:
Estruturalismo, Natureza-Cultura, Animismo, Perspectivismo Ameríndio, AmazôniaResumo
O ponto de partida deste ensaio é uma avaliação dos êxitos e falhas do estruturalismo, exemplificado pela obra de Claude Lévi-Strauss, com particular atenção a sua aplicação a dados etnográficos amazônicos. Pretendo identificar as contribuições originais de Lévi-Strauss, mas também mostrar como o estruturalismo obstruiu e confundiu as estruturas e os temas das culturas amazônicas que tentou analisar por mal aplicar seus próprios conceitos teóricos e metodológicos, assim produzindo o que chamo de “crise de estruturalismo tardio”. Sugiro então como desenvolvimentos recentes na antropologia amazonista, notadamente o repensar o animismo proposto por Descola e seus sócios e o desenvolvimento do perspectivismo por E. Viveiros de Castro e seus colegas, podem ser entendidos como tentativas de evitar ou transcender esta crise através de uma reformulação de conceitos teóricos chaves do estruturalismo, começando com a relação natureza e cultura. Discuto as semelhanças e as diferenças entre as abordagens animistas e perspectivistas do tema e outros conceitos teóricos decorrentes, como a relação entre a forma e o conteúdo do corpo, agência e espírito e as dimensões subjetivas e objetivas de esquemas cognitivos, considerados como as unidades fundamentais de estruturas culturais. Em conclusão, sugiro que o exame crítico dessas duas novas tendências teóricas aponta para uma reformulação positiva da relação natureza e cultura, enraizada no papel fundamental da atividade produtiva, e da produção reflexiva da produção como característica fundamental de muitas, senão todas, ideias culturais amazônicas de cultura.
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