A crise do estruturalismo tardio: perspectivismo e animismo, repensando cultura, natureza, espírito e corporeidade

Autores

DOI:

10.56762/tecnia.v11i1.2825

Palavras-chave:

Estruturalismo, Natureza-Cultura, Animismo, Perspectivismo Ameríndio, Amazônia

Resumo

O ponto de partida deste ensaio é uma avaliação dos êxitos e falhas do estruturalismo, exemplificado pela obra de Claude Lévi-Strauss, com particular atenção a sua aplicação a dados etnográficos amazônicos. Pretendo identificar as contribuições originais de Lévi-Strauss, mas também mostrar como o estruturalismo obstruiu e confundiu as estruturas e os temas das culturas amazônicas que tentou analisar por mal aplicar seus próprios conceitos teóricos e metodológicos, assim produzindo o que chamo de “crise de estruturalismo tardio”. Sugiro então como desenvolvimentos recentes na antropologia amazonista, notadamente o repensar o animismo proposto por Descola e seus sócios e o desenvolvimento do perspectivismo por E. Viveiros de Castro e seus colegas, podem ser entendidos como tentativas de evitar ou transcender esta crise através de uma reformulação de conceitos teóricos chaves do estruturalismo, começando com a relação natureza e cultura. Discuto as semelhanças e as diferenças entre as abordagens animistas e perspectivistas do tema e outros conceitos teóricos decorrentes, como a relação entre a forma e o conteúdo do corpo, agência e espírito e as dimensões subjetivas e objetivas de esquemas cognitivos, considerados como as unidades fundamentais de estruturas culturais. Em conclusão, sugiro que o exame crítico dessas duas novas tendências teóricas aponta para uma reformulação positiva da relação natureza e cultura, enraizada no papel fundamental da atividade produtiva, e da produção reflexiva da produção como característica fundamental de muitas, senão todas, ideias culturais amazônicas de cultura.

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Biografia do Autor

Terence Turner, Universidade de Chicago

Terence Sheldon Turner (1935-2015), professor emérito de antropologia na Universidade de Chicago. Conhecido por seu trabalho etnográfico e ativista em prol das comunidades Kayapó do Brasil, Turner abordou tópicos que vão desde organização social e parentesco até mito, ritual e história, desde a construção da personalidade até a ontologia e epistemologia da representação, desde organização e mobilização política até valores e relações interétnicas.

Lucas de Jesus Santos, Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

Doutorando em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com estágio sanduíche pela Universidade de Chicago, mestre em Teoria e História Literária também pela UNICAMP, e bacharel em Letras, com habilitação em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Desenvolvi, durante o mestrado, pesquisa sobre o teórico palestino-americano Edward W. Said (dissertação premiada com menção honrosa - Prêmio Dirce Côrtes Riedel ABRALIC - 2017). No doutorado, pesquiso a obra do escritor argentino Juan José Saer em conexão com correntes contemporâneas da filosofia como o Realismo Especulativo. Fui Professor Substituto de Teoria da Literatura na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na Universidade Federal de Goiás (UFG). Minhas áreas de interesse são História e Teoria da Literatura e suas relações com outros saberes como Antropologia e Filosofia.

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Publicado

30.01.2026

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Como Citar

TURNER, Terence; DE JESUS SANTOS, Lucas. A crise do estruturalismo tardio: perspectivismo e animismo, repensando cultura, natureza, espírito e corporeidade. Revista Tecnia, Goiânia, v. 11, n. 1, p. e110111, 2026. DOI: 10.56762/tecnia.v11i1.2825. Disponível em: https://periodicos.ifg.edu.br/tecnia/article/view/2825. Acesso em: 31 jan. 2026.

Edição

Seção

Ciência Humanas e Sociais, Letras e Artes

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